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A importância da comunidade com "Meet me in St. Louis"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.12.13

Este é um musical de Minelli. Uma família tradicional e a simplicidade da sua existência. Há afecto, alegria e sobretudo uma cultura que eu me atreveria a caracterizar de democrática. A disciplina não se impõe sem o respeito por cada um. É assim que o pai irá reconsiderar a sua decisão de mudarem para Nova Iorque, a melhor prenda de Natal que poderia dar à família.

 

Há duas cenas magníficas e cronometrei-as, a primeira inicia-se já o filme vai a 1h:06m até 1h:16m (exactamente 10 minutos): a notícia da mudança para Nova Iorque, com a reacção de tristeza da família, em que todos perdem o apetite e deixam a fatia de bolo na mesa. O pai sente-se magoado com esta reacção e senta-se num cadeirão, a mulher vem animá-lo e traz-lhe o seu prato com a fatia de bolo. Senta-se então ao piano e toca uma canção que o marido reconhece emocionado. Levanta-se e canta. Começamos a ver os filhos e o avô a descer as escadas e, um a um, a pegarem no seu prato com a fatia de bolo e a sentar-se, a empregada incluída, ainda um pouco desconsolados. Minelli consegue dar-nos a atmosfera certa das emoções e sentimentos de cada um apenas com gestos simples do dia-a-dia de uma família.

 

 

 

 

Outra cena magnífica vem um pouco depois, a partir da 1h:34 até à 1h:45, poucos minutos antes do fim do filme, e envolve toda a sequência que se inicia com a canção de Natal à janela, a crise de revolta e desespero da filha mais nova que destrói os bonecos de neve. O pai espreita à janela, diz à outra filha que está tudo bem, desce as escadas onde já vemos a parede vazia dos quadros, senta-se de novo num cadeirão e risca um fósforo para fumar. Tão absorto está que queima os dedos. Percebemos pelo seu rosto que tomou uma decisão. Levanta-se e chama a família. Vemo-los a descer as escadas de novo, um a um, desta vez quase a correr, para saber o que se passa. Ao anunciar-lhes a decisão de ficar em St. Louis, há uma ironia nas suas palavras: vamos ficar aqui até apodrecermos. E começa a evidenciar as qualidades da cidade, sendo uma delas a organização da Feira Internacional. Todos se manifestam animados e felizes, entretanto lembram-se que já é véspera de Natal e abraçam-se. Vemos a mãe voltar ligeiramente as costas, comovida, o marido olha-a e aproxima-se, e coloca a mão sobre a sua.

 

Minelli é perfeito na atmosfera dos seus musicais. A mensagem está nos pequenos pormenores. A simplicidade da vida familiar, a continuidade das gerações, o futuro sempre presente.

As famílias saudáveis são as que mantêm essa abertura para a passagem do tempo, a mudança, um novo equilíbrio. Embora esta família acabe por ficar na sua cidade e na comunidade que conhece, está virada para o futuro.

Não é o medo da mudança que os mantém ali, é a noção de que em Nova Iorque se sentirão desenraízados, isolados (e os nossos amigos?), a sua qualidade de vida será afectada (pessoas como nós não poderiam manter uma casa com jardim em Nova Iorque, teríamos de viver num andar).

 

Hoje quantas famílias desejariam ficar na sua cidade, na sua comunidade, e mesmo no seu país, se tivessem essa possibilidade? É certo que hoje já se comunica melhor à distância, no tempo do filme só há o telefone de casa, mas nada substitui o convívio afectivo e social.

 

 

 

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publicado às 20:53

Aprender a apreciar a vida com "Mary Poppins"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.12.13

Mary Poppins, um musical que mantém a frescura tantas décadas depois de continuar a ser um dos musicais mais escolhidos pela televisão na época do Natal. Mary Poppins é muito mais do que parece à primeira vista. A nanny é muito mais sábia do que parece. E na família todos vão aprender a apreciar a vida.

 

A mensagem de Mary Poppins é intemporal, não se situa no tempo. Reparem que até mesmo a personagem da mãe sufragista se mantém hoje, embora com outras roupagens e outros métodos. E o pai Banks, que trabalha no banco, hesita entre o primado do dinheiro, a vida organizada e rotineira e os sonhos que foi deixando pelo caminho.

Todos terão de fazer uma ginástica mental e emocional para se manterem funcionais no mundo real, pois só felizardos como Mary Poppins e o seu amigo Bert se podem dar ao luxo de ser absolutamente, radiosamente, despudoradamente livres de constrangimentos sociais.

Mas com um pouco de sorte, também alguns de nós, os restantes mortais, poderemos ainda manter e integrar em adultos as diversas fases da nossa história: as crianças que um dia fomos, os adolescentes que um dia fomos.

 

A mensagem é precisamente essa: apreciar a vida de forma inteligente, ser suficientemente flexível para escolher a melhor forma de lidar com cada obstáculo e contrariedade. E uma das ferramentas para a vida é precisamente saber manter o sentido de humor, a jovialidade e a imaginação.

 

 

 

 

A infância é essa fase em que a realidade se mistura com a fantasia. Pensamos que a partir da adolescência essa mistura se apaga. Talvez isso aconteça com a maior parte das pessoas que são educadas e condicionadas a anular essa parte da sua história e a seguir a cultura dominante, o primado do sucesso económico, da funcionalidade e da rentabilidade. Ou mesmo que não sigam a cultura dominante, mesmo que privilegiem as pessoas, as interacções, os afectos, são programadas para evitar a espontaneidade da infância.

Paradoxalmente, este papel de "adulto" pouco tem a ver com maturidade ou responsabilidade, é apenas um papel num teatro social. Por isso vemos hoje, em adultos, tantas atitudes reveladoras de imaturidade e irresponsabilidade. E pior, vemos que perderam a capacidade de rir espontaneamente e de apreciar a vida.

 

 

 

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publicado às 23:17

A genica inesgotável das senhoras de uma certa idade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.09.10

 

Raros são os homens que mantêm esta genica na velhice, mas existem. Esta genica de que vou falar hoje é própria das senhoras de uma certa idade, a partir dos 80 e tal aninhos, as felizardas! Bem, as que têm a sorte de viver no seu espaço-tempo próprios, com alguma autonomia. Não estou a falar das que, por circunstâncias da vida, não têm essa sorte.

Já tinha constatado este fenómeno na vida real, não precisava de ver documentários ou filmes a confirmar isto mesmo. Lembro-me em especial de um documentário filmado num lar de idosos (palavra horrível), em que a senhoras se queixavam de ter perdido os maridos há anos e as que não os tinham perdido, era ainda pior!, viam-nos dormir todo o tempo sentados num cadeirão. Este desequilíbrio é terrível a partir de uma certa idade. Porque as mulheres, quando mantêm os neurónios afinados, têm uma necessidade inesgotável de comunicar, de conversar, ou de se entreter numa qualquer actividade, algumas até cantar e dançar. Neste lar as actividades eram promovidas, assim como a autonomia (se os nossos lares fossem todos assim...), e eram as mulheres as mais entusiastas. O pessoal pareceu-me especializado, não notei ali tiques de paternalismo, insuportável mania dos nossos técnicos, por melhor intencionados que sejam! Davam-se passeios de autocarro, e se não podiam ir ao teatro ou aos espectáculos, havia sempre teatro ou espectáculos a vir ao lar. Mas só alguns homens participavam na animação. A maioria ou dormitava num cadeirão ou mostrava-se alheia a tanta agitação.

 

Há, evidentemente, outras razões para este desequilíbrio: a idade é melhor para as mulheres do que para os homens, esse é um facto. No Japão, por exemplo, noutro documentário que vi, os homens encaravam muito mal o regresso a casa depois de uma vida de rotina de trabalho no exterior. Mas pior do que eles, eram as mulheres a adoecer com a presença dos homens todo o dia em casa. Têm até uma expressão muito elucidativa para designar os homens na reforma: uma folha de outono molhada colada à parede. Estão a ver? Muitas acabavam no psiquiatra e foram aconselhadas a mudar as suas rotinas: muito bem, os homens ficam em casa, elas saem de casa, há tantas actividades possíveis em grupo, cursos de arranjos de flores, por exemplo, ginástica, natação, yoga, voluntariado, ou mesmo voltar a estudar. Mesmo por cá, vemos imensas mulheres a fazer o mesmo. Embora por cá se encontrem sobretudo viúvas, que querem manter uma vida útil e activa, e não encarar a casa vazia todo o dia.

 

Se estas mulheres tiverem a sorte, como disse, de se manter activas e com alguma autonomia, podem ser extremamente perspicazes, nada lhes escapa. Os seus neurónios trabalham numa espécie de ligações rápidas e directas, em auto-estradas, e ligam só o essencial de cada problema que lhes apresentem. É certo que há ali interferências de preconceitos culturais, algum peso da tradição, o que é certo e o que é errado, o que é próprio e o que é impróprio, mas fora isso são muitíssimo práticas e inteligentes. Lembram-se daquele filme com o Peter Sellers? Em que um grupo de ladrões do pior invade a casa de uma velhinha e, quando se vêem descobertos, a tentam matar mas não são bem sucedidos? A velhinha é simplesmente uma valentona, nada a demove ou intimida!

 

Esta energia e coragem vem não se sabe de onde. Eu própria já me senti incapaz de acompanhar a genica de algumas senhoras de idade digamos assim, uma experiência nada nada edificante. Às vezes imagino-as ligadas a uma pilha Duracell, a sério! Aliás, foi o que sentiu o protagonista de um filme italiano, simplesmente delicioso, que vi semanas atrás na RTP2, Pranzo di Ferragosto. Aquele almoço em Agosto deixou-o esgotado, de rastos. E tudo começou com várias contrariedades: o mau feitio da mãe, pouco receptiva a receber convidadas em casa; uma das convidadas, amuada, que se fechou no quarto, deixando-os privados da sala de jantar para as refeições. Só a tia Maria, a especialista da pasta, se portou bem desde o início. Além de o orientar na pasta, acolheu a mãe do médico, a terceira convidada, a pedido do médico, pois estava de banco nessa noite. Contrariedades e responsabilidades: a mãe do médico vinha com restrições alimentares mas atirou-se à pasta, de noite e às escondidas, farta de comer legumes cozidos. A convidada que tinha amuado saiu de casa em plena noite sem avisar ninguém, foi descobri-la toda apinocada numa esplanada. Quando finalmente a convenceu a regressar a casa, queria jogar às cartas, dançar, e ainda se mostrou atrevidota. A paciência do nosso santo homem estava a esgotar-se. Noite mal dormida, de manhã descobre as quatro em alegres conversas, muito animadas. Investem generosamente no almoço e tudo. E ficam a pôr a mesa com todos os requintes enquanto ele vai, com um amigo, de vespa, escolher o peixinho fresco para o almoço. Almoço memorável, todos felizes, vinho fresco, conversas animadas. O nosso protagonista dá por falta do amigo e vai descobri-lo a dormir no quarto, esgotado. Desata a rir. É que ele tinha aguentado até ali. E não é que quando volta ao almoço animado, as senhoras o subornam indecentemente para mais um dia daquele alegre convívio?

Delicioso filme-documentário. Vemo-los dançar em plena sala, no final. Já tinha saudades de filmes-documentários assim... que se aproximam de forma despretensiosa da realidade do dia a dia normal (?) de tantas pessoas por esse mundo fora, vidas simples (??) ou vidas mais complicadas, mas que se podem simplificar quando existem protagonistas assim, com uma paciência de Job...

 

 

 

 

 

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publicado às 09:16


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